Jussara Soares
 Sou uma apaixonada por estradas. Quando criança, viajava ajoelhada no banco de trás, vendo a estrada correr. Depois, quando pude me sentar no banco da frente, descobri a delícia de abrir a janela e deixar o vento bagunçar meu cabelo. Às vezes, colocava a mão para fora, como se quisesse pegar o ar. Não faço questão de velocidade, nem de chegar rápido. Prefiro perder tempo no caminho a perder a paisagem.

Por isso, quando li a reportagem do canal de Turismo do IG sobre as dez estradas mais incríveis do mundo, a vontade foi começar a percorrê-las imediatamente. Ainda que elas ligassem nada a lugar nenhum, eu as percorreria só beleza ou pelas emoções de suas curvas.

Se você tiver essa vontade também, sugiro começar pelas duas estradas que estão aqui na América do Sul. Uma é a Los Caracoles, que liga Mendoza, na Argentina, a Santiago, no Chile. Outra é a Los Yungas, mais conhecida como Estrada da Morte, que liga La Paz a Coroico, na Bolívia.

Percorri as duas de olhos atentos, câmera em riste e deslumbrada com o que se descortinava à minha frente. Confira as dicas para você colocar o pé nessas estradas também!



Los Caracoles – Mendoza (Argentina) a Santiago (Chile)

Mochileiro que é mochileiro prefere fazer viagens à noite para economizar com a hospedagem e não perder o dia. Ou, se viaja durante o dia, aproveita para repor o sono perdido nas festas noite adentro. Mas, neste caso, o trajeto de seis horas entre Mendoza e Santiago vale cada minuto. Cruzar a Cordilheira dos Andes, quase sempre coberta por neve, é um deslumbramento só.

Se você se garante no volante, alugue um carro e encare as curvas com cuidado. Dificuldade aí será manter atenção na direção, já que a paisagem é hipnotizante. Outro risco é a sua viagem demorar muito mais que as seis horas previstas: você pode querer parar a todo momento para fotografar.

No meu caso, eu fiz o trajeto de ônibus. E foi perfeito! Assim que cheguei em Mendoza comprei logo a passagem na Viação Andesmar para dali a três dias. Isso me garantiu a primeira poltrona do andar superior do ônibus.  Paisagem privilegiada e eu nem precisei fazer esforço para fotografar.


Ah, nas curvas mais acentuadas, dá um frio na barriga. Mas para quem gosta de fortes emoções, isso é apenas mais um atrativo deste percurso.



Los Yungas (Estrada da Morte)  –  La Paz a Coroico, na Bolívia

O nome correto é Los Yungas, mas é conhecida mesmo por Estrada da Morte. Claro que só por isso ela já dá medo. Nenhuma outra estrada matou tanta gente como esta. Mas uma coisa é certa: se você encarar o desafio de cruza-la de bicicleta verá no meio do caminho que seu medo fica muito pequeno diante do deslumbramento de cada paisagem dos 70 quilômetros ladeira abaixo, de La Paz a Coroico.



Pausa para o descanso

O primeiro passo é você procurar uma agência confiável para alugar as bicicletas e te levar até o ponto culminante (4.640m) para começar a descida. No centro de La Paz, há várias que oferecem o passeio. Mas, neste caso, não vale economizar. Certifique-se que as bikes estão em bom estado, se há bicicletas reservas, se há equipamentos de segurança e roupa de apoio.

O ideal é que sempre vá um guia antes do grupo e outro depois dando as dicas de como se comportar na estrada. Além disso, o carro de apoio tem que estar lá em caso de algum acidente. Ou mesmo se você se cansar. Mas é muito pouco provável que isso aconteça.

Meus amigos e eu fomos com a Extreme, que tem um serviço razoável. Érika (aqui do blog) teve problemas com a bicicleta e levou um tombo logo na primeira curva. Substituíram a bike, mas aí minha amiga já estava toda esfolada. Pois é, acontece. Mas tenho certeza que ela não se arrependeu. Uma garrafinha de água, bananas e depois coca-cola com sanduíche são servidos durante o trajeto. No fim, incluído no serviço, teve um almoço num hotel em Coroico. Quem se animou até deu um mergulho na piscina para relaxar.

Mas vamos ao que interessa: a estrada. No começo, tem um trecho de asfalto que faz você pegar confiança. Mesmo assim, confesso, ainda fiquei com medo. Parte do grupo parecia que estava em uma competição. E eu fui ficando para trás, para trás… Correr pra quê? Eu não queria cair, muito menos perder as paisagens. Ia pedalando e me distraindo com tanta beleza. Um amigo ficou para me acompanhar. E a lógica dele fez todo sentido: percorrer uma estrada dessa precisa de companhia. É ótimo ter alguém pra ficar boaquiaberto do seu lado. Ah, e claro, para fazer aquelas fotos bacanas!
Quando a gente chegou no começo da estrada de terra, uma placa avisava: 43 pessoas já haviam morrido na estrada aquele ano. Mas a essa altura, li aquilo e pensei: e daí? Eu quero mais é ver toda essa beleza. Naquele momento tive certeza que o risco faria valer todo o resto da vida que ainda teria pela frente.

E valeu mesmo. Dá saudade aquele vento no rosto, a queda d’água inesperada que surge no meio do caminho e a gente para para matar a sede, a sensação de encantamento a cada curva, do medo que desaparece e a glória de chegar ao fim da estrada. Um passeio imperdível para quem gosta de aventura e gosta de beleza: nunca vi na vida seqüência de imagens tão bonitas.


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  • 3 x Trinta – Solteira, Casada, Divorciada

    Oi Ju,

    Bacana, vcs criaram um site mesmo, ótimo.

    Tb amo estradas desde sempre.

    Beijos, sucesso, vou agilizar aquele texto,

    Bela

  • Bruno Mangilli

    Eu quero uma namorada aventureira igual a Jussara,kkk. Imagino que deve ter sido muito foda essa trip. Eu pedalo e quando acho uma longa descida curto ao máximo. Bom post !

  • Jussara Soares

    Ei, Bruno! A viagem realmente foi perfeita. Se tem dicas de bons circuitos para pedalar, manda aí pra gente.

  • victor amon

    incrivel, sou louco por essas viagens de carro, da uma sensaçao de estar dentro de um quadro ou de uma fotografia e de repente perceber que aquilo é real e está ali. Meu sonho é dar a volta ao mundo dirigindo

  • Juliana Lima

    Adorei, friend…estou querendo ir a Machu Picchu. Vou pegar dicas com você.
    Um beijo.
    P.S. Veja se alguma das estradas que andas percorrendo tem um atalho até nós, porque a saudade é muita!

  • Gilson Nemetz

    Fizemos eu, minha esposa e meus 2 filhos de 8 e 10 anos a travessia da Cordilheira – Mendoza à Santiago. “Gastamos” cerca de 12 horas para rodar pouco mais de 300km. Muiiito lindo. Não há palavras, fotos e filmagens que descrevam a beleza e a imensidão daquele lugar… Se vc tiver possibilidade de fazer esta viagem, não perca tempo. FAÇA!!!

  • http://www.facebook.com/Fotoviajar Fotoviajar Pelo Mundo

    Este é o meu tipo de viagem preferido, na estrada, fazendo o meu próprio tempo ao volante. Mudando de percurso se me apetecer, alterando planos, à minha velocidade. Costumo fazer viagens de noite (como você disse logo no início) para cobrir grandes distâncias, quando quero chegar a algum lugar. Mas se for para descobrir, claro, tem que ir de dia.
    Boas viagens.