Perdida em Paris

 Regiane Soares Von Atzingen – jornalista, São Paulo -SP

Chovia e fazia muito frio naquela tarde de outono. O vento levava calmamente as folhas secas que caíam das árvores e enfeitavam aquelas largas avenidas. As pessoas caminhavam apressadas e tentavam, de alguma forma, se proteger. Estava em Paris, e incrivelmente angustiada. Não pelo tempo ruim. Por muitas vezes senti o vento frio trazer a nostalgia em dias nublados. Mas era a primeira vez que essa sensação vinha acompanhada da solidão. Estava só em Paris, e literalmente perdida.

Mas a angústia chegou algumas horas antes, quando ainda estava em Zurique, na Suíça. Lá também fazia muito frio. Tanto que a neve que caía sobre toda a cidade impediu a decolagem do avião que me levaria a Paris. Já estava na sala de embarque quando o cancelamento do voo foi anunciado.
Mesmo sem falar inglês, entendi que estava numa situação complicada. Todos os passageiros foram deixando a sala de embarque, até que fiquei só pela primeira vez.


Fiquei olhando a neve cair sobre os aviões. Pensei em chorar, e meu queixo começou a tremer. Imaginei em encontrar um artista global. Mas ele não apareceu. Então desisti de chorar. Minhas lágrimas não me levariam a Paris. Segui até o balcão de atendimento da companhia aérea. Apresentei o meu bilhete e disse, desesperada, para a funcionária: “I don’t speak English…” Então ela tentou falar comigo em francês, italiano e alemão, idiomas oficiais da Suíça. Tentei em espanhol, afinal havia passado um mês estudando na terra das touradas. Não teve jeito…

Então, comecei a chorar. Tinha ido a Zurique visitar minha amiga suíça Simona. Foi a primeira vez que eu vi a neve. A recordação daqueles dias vou guardar para sempre na minha memória e no meu joelho direito. Na noite anterior à minha partida, fomos patinar no gelo, e não precisa contar o que aconteceu… Patinei com um joelho só. Foi uma queda espetacular.


Simona havia me deixado no aeroporto antes das 6h, e já passava das 10h quando meu vôo fora cancelado. Estava com fome, e não tinha mais nenhum franco suíço. Já tinha feito o câmbio, e trocado tudo por franco francês.
Naquela época, em dezembro de 2000, o euro ainda existia como moeda única da comunidade européia.


Vendo o meu desespero, a funcionária tentou então fazer mímicas e escrever, em inglês, as minhas opções de chegar a Paris. Entendi que poderia partir no vôo das 13h, e autorizei a emissão de um novo bilhete. Junto com a passagem, recebi um cartão telefônico para avisar a família e um tíquete para comer em qualquer restaurante do aeroporto. Não me recordo o valor, mas lembro bem que pedi o café da manhã mais caro do cardápio, e ainda sobrou. Comprei vários chocolates. Saciada, fui novamente para a sala de embarque esperar o avião.

Finalmente parti rumo a Paris. Vi a Torre Eiffel pela janela do avião. Era minha única certeza de ter chegado à Cidade Luz. E me senti só pela segunda vez. Pensava na fama do povo francês de ser grosseiro com turistas que não falavam o seu idioma. Pensava em encontrar uma forma de chegar até o hostel. Mas estava perdida naquele imenso aeroporto. Então segui as placas que tinham o desenho de um trem. Sabia que tinha de tomar um trem para depois pegar o metro e ainda fazer duas baldiações. Segui todas as orientações do guia que levava nas mãos, e cheguei à estação desejada. Mas saí pelo lado errado, e fiquei perdida novamente.

A chuva já tinha dado uma trégua, mas vento ainda soprava e derrubava as folhas das árvores. E me senti só pela terceira vez. Carregava uma mala pesada nos ombros e outra gigante que puxava por uma cordinha. Tentava entender o mapa que estava no guia, mas não conseguia compreender. Então entrei numa farmácia e arrisquei: “parlez vous espagnol?”. Nenhuma resposta positiva. Mostrei o mapa e o local onde pretendia chegar, e a mulher respondeu prontamente. Porém, não entendi uma só palavra.


 “Merci”, respondi como se estive certa do caminho.
Continuei a caminhar pela avenida, meio sem rumo. Olhava atentamente o mapa e o grande cruzamento que eu me aproximava. Mas nada me fazia entender aquela cidade. E lembrei do que minha irmã Rosely me dissera pelo telefone no primeiro contato que fiz com minha família assim que chegara a Paris. Havia confidenciado a angústia de estar numa terra estranha, sem conhecer nada nem ninguém. E ela respondeu que os anjos do Senhor Jesus iram me guiar.

Confesso que minha pouca fé fez com que eu não acreditasse no poder de Deus sobre a minha vida. Ainda mais estando a quilômetros de distância de casa. Mas Deus é onipresente. Faltavam apenas alguns passos antes de chegar à esquina do grande cruzamento quando um senhor me abordou. Uma boina cobria seus cabelos brancos e, debaixo do braço, trazia dois livros. Falou algumas palavras em francês e depois em inglês. Tentei em espanhol, e bingo! Finalmente um diálogo. Perguntei sobre o hostel, e descobri que estava apenas a poucas quadras de distância.

Não se conteve em apenas mostrar o caminho. Pegou a cordinha da minha mala e começou a puxá-la. Antes de atravessar a avenida, iniciou um rápido e inesquecível diálogo. Perguntou de qual país eu era. Respondi que era do Brasil. Então, ele não se conteve de novo. “Não acredito! Ela é brasileira…”, disse o senhor de cabelos brancos, já não mais em espanhol, mas em português. E começamos a atravessar a avenida quando ele perguntou novamente: “De que lugar do Brasil?”. “De São Paulo”, completei, também em português. “Não acredito! Ela é brasileira… De São Paulo… Então você conhece a praça da República?”, perguntou novamente, levando os livros sobre a cabeça. “Sim, conheço a praça da República”, respondi. Pensei em perguntar porquê tanto sentimento por um país, uma cidade e uma praça. Mas não deu tempo. Chegou o outro lado da avenida, e já não estava mais perdida. Nem sozinha.

Ele me devolveu a cordinha da mala e disse que o hostel ficava na segunda rua à direita. Agradeci e me despedi pensando no que ele teria visto ou vivido na praça da República. Seja o que for, mal sabe ele no que se transformou a nossa praça, que dirá a nossa República. Em êxtase, o senhor de cabelos brancos voltou ao caminho que havia desviado para me ajudar. Atravessou novamente a avenida e, do meio fio, dizia acenando com as mãos e jogando beijos: “Tchau! Sorte, muita sorte para você”. Naquele dia tive a certeza que anjos existem, são poliglotas e conhecem a praça da República…
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