Tour da Uva e do Vinho

 Marcel Bezerra, Jornalista Fortaleza-ce ( 27.10.2010)
 IGREJA DE SÃO PELEGRINO – CAXIAS DO SUL

Lara escolheu o city tour da uva e do vinho pela Liga Turismo, porque incluía passagem pela igreja de São Pelegrino, pois o da Brocker Turismo não passa por lá. Custa R$ 160 por pessoa, e apesar de ser um passeio que considero entre os obrigatórios, é um investimento que vale a pena cada centavo.

A igreja fica em Caxias do Sul, cujo time de futebol é o Juventude, que esse ano disputou a terceira divisão do Campeonato Brasileiro (mesma situação de um time conhecido nosso acolá, só que o Juventude foi rebaixado pra Série D, com 8 pontos, e esse outro time ficou na beirinha). Segunda maior cidade do RS, Caxias tem em torno de 500 mil habitantes e fortes traços da colonização italiana.

Igreja de Sao pelegrino  – Um arraso
Tanto que o atrativo da igreja são as pinturas do Aldo Locatelli, um pintor ítalo-brasileiro nascido em 1915. Ele pintou a via sacra nas paredes e no teto da igreja de São Pelegrino. O trabalho dele durou 10 anos em Caxias, mas ficou massa. Locatelli também pintou afrescos e painéis em outras igrejas e prédios públicos no Rio Grande do Sul. Acabou gostando do Brasil, onde fixou residência até morrer em POA em 1962. Outros trabalhos dele podem ser vistos nas catedrais de Santa Maria e de Novo Hamburgo, no mural do antigo Aeroporto Salgado Filho, na Reitoria da UFRGS, e no Palácio Piratini, sede do “gunverno”estadual em Porto Alegre.


VINÍCOLA ZANROSSO – CAXIAS DO SUL

Fotos, fotos, fotos – foram mais de 340 só nesta quarta-feira – e a gente seguiu para uma vinícola artesanal ainda em Caxias, a Zanrosso. Esse foi um dos pontos mais legais do city tour que eu achei, conhecer aquela coisa da empresa cuja história começou com o povo que imigrou da Itália, trabalhou até quase se lascar e o negócio prosperou pelas gerações seguintes.

A história dessa famíllia é bem típica (e o vinho bem gostoso), e o bom é que o velho, seu Nono (Antônio) Zanrosso, quase 90 anos, tá até lá hoje pra contar, e a família já tá na quarta geração. É o enólogo da Zanrosso, que por ser tradicional não tem os laboratórios das grandes vinícolas. Bati até uma foto com ele, cujo traço marcante é ser “lá de nóis”, manguaceirin que é danado. Só que, “nóis”na cerva, e ele no vinho. Dizem que, na colheita da uva, que vai de janeiro a março, o velho vai pra um lado do parreiral com um garrafão de 5 litros de vinho, e a família vai pra outro. A negada volta cedo e o seu Nono só aparece no fim da tarde. Garrafão vazio, óbvio. Aliás, é a família quem colhe a uva e opera todo o processo produtivo.

Disseram que o médico recomendou ao Nono que bebesse menos vinho, e o fizesse só após as refeições, um copo. A partir daí ele passou a fazer num sei quantas refeições ao longo do dia. Conversei com ele, perguntei se tomava vinho, e ele disse: “só depois das refeições. Mas no verão, em vez de tomar água, a gente toma vinho”. Gúâ!

Quem nos guiou na Zanrosso foi o Celso (ele aparece nas fotos), filho do seu Nono. O Celso é um dos que tomam conta da vinícola, cuja produção é de 1 milhão de litros por ano, de suco e vinho. A Zanrosso não vende para fora. 40% são consumidos em Caxias e 60% comprados pelos turistas. Se você quiser comprar, tem que encomendar. Pedindo de 4 caixas pra cima, o frete fica R$ 15 por caixa pro CE.

O Nono, por sua vez, é o primeiro filho, de 6, do Ernesto, o italiano que veio da Itália no início do século. Naquela de trabalhar na terra pagando por ela à prestação. Se não conseguisse pagar, perdiam tudo. O Ernesto (numa foto P&B bem grande) chegou em 1914 no Brasil e fez em 1937 a casa de pedra (lá o vinho é guardado pra envelhecer) onde hoje eles recebem os visitantes e vendem o vinho.

Quando se conhece uma vinícola, é bom que a pessoa (como o Filipe, por exemplo), já tenha feito um curso sobre vinho, porque aí fica mais interessante saber como os tipos são feitos (afinal são 90 tipos de uvas). Não me liguei muito nessa parte, o processo passo a passo.

Só sei que 1,3kg de uva dá um litro de vinho, que a cor do vinho vem da casca da uva, que da uva se faz também uma cachaça ruim feito a peste, a graspa, que todo vinho produzido é seco, e o vinho suave é o seco adicionado do açúcar da cana (aliás deu pra perceber que eles não gostam muito do suave, fazem mais por questão de mercado). Vinho branco tem que ser consumido entre 5 e 10 graus, tinto de 14 a 20.

Legal também foi saber que aquela história de que o vinho tem de ficar nos barris (tinas) de carvalho é falácia (assim disse o Celso). Hoje, a maior parte é nas pipas de inox, bem grandonas, porque a madeira altera o gosto da bebida (apesar de que as vinícolas ainda produzem nesses barris). Outra falácia é que quanto mais velho o vinho, melhor. O Celso disse que você tem que beber o tinto em até 6 anos e o branco em até quatro, estando eles bem guardados (deitados ou inclinados pra ter o contato com a rolha), porque senão vai alterando o gosto.

Com o tempo, vai grudando nas paredes internas das tinas um cristal que é depois comprado pela indústria farmacêutica, o ácido tartárico. Com isso são produzidos os efervescentes (Redoxon, Sonrisal, etc etc).

A Zanrosso faz também o suco de uva de verdade, não aquele que a gente costuma beber. O Celso disse que esse suco réi de uva que a gente toma é feito com uma uva americana.

VINÍCOLA SALTON – BENTO GONÇALVES

De Caxias fomos conhecer uma vinícola industrial, a Salton em Bento Gonçalves. É uma empresa “chibata”, que tá fazendo 100 anos. Tem até um pintor – Cristiano –, que, ao estilo Lucatelli, tá pintando nas paredes várias coisas em comemoração à data, entre elas a linha do tempo da empresa.

Apesar da boa vontade da Gláucia, que nos guiou na visita a explicar tudo bem direitinho, inclusive o interessante processo de produção dos espumantes, não consegui que aquele conteúdo entrasse no meu côco. Só sei que, fazendo essas visitas a vinícolas, a gente passa a valorizar mais a bebida e a – partir de agora –, a não achar tão caro o preço deles nas prateleiras dos supermercados e importadoras. E também a condenar com mais veemência quem se atreve a beber esses vinho réi como O Gaúcho e São Braz nos garrafões pet da vida.

A Salton compra a uva de 150 famílias parceiras que produzem na região, só 5% é de produção própria. A automação, desde a hora que o produtor entrega a caixa e a recebe lavadinha, passando pelo envase até elas chegarem nas caixas, é legal. A Salton tá com uma linha especial de vinhos por conta dos 100 anos, mas é tanto tipo que não vale a pena nem lembrar. Aprendi a gostar dos brut, proseccos, moscatel e demi-secs, heheheheheh.

O almoço foi na Salton mesmo. E a comida, olha, excelente. Dá direito a água e uma taça de prosseco. Mas tomei logo foi uma garrafa de cabernet sauvignon (ora, R$ 9,90 lá….). Traçamos frios, sopa de capeletti, penne a bolonhesa, um outro macarrão lá ao molho branco, lombinho, polenta mole, frango ao primo canto e no final uma gelatina branca com suco de uva em cima. Delícia.

MARIA FUMAÇA – BENTO GONÇALVES – GARIBALDI – CARLOS BARBOSA

Nas carreiras com tempo apertado seguimos para o passeio na Maria Fumaça de Bento Gonçalves a Carlos Barbosa, passando por Garibaldi. Na estação aquele clima: um grupo tocando música regional, gente vestida a caráter, a Miolo enchendo taça de vinho a bambão…

A viagem dura 1h30, para em Garibaldi, e de novo haja vinho (a Lara ficou logo cismada porque comprei uma garrafinha de Miolo 375ml dentro do trem, mas começar e parar uma manguaça assim é dose né, vocês hão de concordar…) Durante o trajeto, toda hora tem uma apresentação diferente, o povo chama os turistas pra dançar, pápápá, pêpêpê. O trem vai bem “divagarin” mas a viagem é boa.

Haja foto, haja foto, e a gente chega a Carlos Barbosa, terra da Tramontina e de um famoso time de futsal que leva o nome da cidade. Hora da velha malandragem dessas operadoras de turismo e empresas de receptivo em comum acordo com os empresários (nada ilegal, mas o cara só cai se quiser, ou for estribado): eles levam a gente, em vez da fábrica, que é em frente à estação, pra uma megastore da Tramontina. Eu e a Lara entramos e saímos em menos de 5 minutos. Tudo lá é caro, mais que nas Casas Freitas da vida.

Em frente a essa loja tem outro esquema, acho que do guia, mas esse é mais saboroso. Uma casa de queijos, salames e vinhos (esqueci o nome, mas só tem ela) onde o cara te apresenta, falando alto e sem gostar muito de ser interrompido, sobre diversos tipos deles. É igual ao vinho: salame e queijo o cara tem que conhecer pra dar valor ao sabor – e ao preço, porque são caros…. É legal. Comprei só um queijin com tomate seco pra não passar em branco, e de quebra outra garrafinha de Miolo a R$ 12.
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